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Escrito por Luis às 06h39
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A MULHER IDEAL
O elemento Ar
Olho para as mãos de Isaías. Vejo a minha vida correndo solta quando não tenho onde fixar o olhar gatuno, irremediavelmente sou alvo de todos os tiros, de todos os tipos, de todos os olhares que intimidam, da religiosidade impressa a ferro na infância interiorana - o pecado de ser livre grita pela boca de Deus - e minha vulnerabilidade expõe-se de modo a me tentar o suicídio. Olho para os pêlos da mão penteados pela própria natureza humana como o são no peito e mais para cima e mais para baixo. As veias gordinhas me causam um riso perdido no canto da boca. É tanta a felicidade que me surpreendo a devotar um dia e mais que ele, a vida, a quem não me deu a vida, a quem não me pôs de pé, a quem não me pôs no palco. Dou mesmo e doa a mim e a quem doer. Casar nunca esteve nos meus planos nem morar junto com ninguém. Mas deixo Isaías dormir porque ainda são horas e porque depois que o amor acontece, o amor fica vulnerável escutando os passos da solidão. Para o café, ovos mexidos com bacon e cebola, pão de alho, pão, chá, café preto.
Escrito por Luis às 06h23
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Bette Davis, nome artístico de Ruth Elizabeth Davis, nasceu em Lowell, Massachussets, em 5 de Abril de 1908.
Hoje faria 100 anos...
Escrito por Luis às 18h53
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Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, nasceu no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958. Hoje faria 50 anos...
Escrito por Luis às 12h40
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A metade da metade
Eu te invejo. Em um de seus filmes, Brigite Bardot cruza as pernas e ninguém dá importância a isto. Mas você cruza as pernas e cada homem nos vinte metros mais próximos sente uma leve fisgada no pescoço. Te invejo, sabia? Tenho a sensação que os paralelepípedos e as calçadas tremem sob seus pés calçados de salto quinze, agulha e sua meia três quartos, tenho ganas de arrancá-la com os dentes como certamente o faz teu homem. Teus homens. Dulce, invejo tudo em você. Invejo os teus seios que apontam os caminhos que você quer que os homens caminhem, a concha incrustada no meio de tuas pernas capaz de produzir pérolas para enfeitar o mundo, invejo a bolsa que enfeita o teu ombro e as quantas coisas você guarda nela: Lapiseiras, rímel, pó, grãos de mostarda para hipnotizar quem você quer à hora desejada. Invejo o feitiço que emana de você e ateia fogo ao meio das pernas dos homens da rua, de ruas, de casas, casados ou solteiros, de meia idade ou garotões de vinte anos. Todo homem quer te levar pra cama, Dulce. Todo homem quer levar uma mulher pra cama. Dulce, você é incrível. Você deve ser incrível. Invejo tua boca, a saliva quente e cheirosa, os lábios macios e doces quando se quer e salgados quando se quer. Invejo teu quadril largo, tua cintura estreita, teu cabelo que desce feito cascata, feito cachoeira nos rochedos do Norte. Invejo até o vaso sanitário do teu banheiro, Dulce, se você quer saber. Quando você fala meu corpo fica mole e meus ouvidos fantasiam escutar palavras de baixo escalão em qualquer madrugada que você queira estar comigo a sós. Dulce, me deixa ser mulher, me deixa ser você. Ou estar em você.
Escrito por Luis às 17h37
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Quatro dedos abaixo do umbigo
Percorro todos os caminhos possíveis na esperança de chegar à mim. Quando eu me encontro tudo se torna leve, o assunto jorra como fonte, a conversa paira como passarinho sobre o alimento poesia, teatro, o alimento vida. Tanto que eu queria viver em mim! Mas há você. Há tua voz e tua conversa que me derruba à tua vontade. Onde passeiam meus olhos castanho-azulados? Há teus olhos. Eu fico aqui entre mal vestido e nu a sentir tua boca na minha nuca e as tuas entradas depois de 24. Pelo amor de Deus! 2 horas da tarde em Pequim. Estudo o texto da minha próxima peça de teatro e amargo o sabor que há na boca larga dos atores deste país. Tua vinda seria bem, mas a vida é assim mesmo: dá com uma mão e pede com a outra. Tua forte marca pessoal me tatua, me deixa nua a cara e a coragem; eu te quero aqui, dentro, eu vigio teus passos nos olhos pretíssimos de Oxum, e me maltrata o medo que contrai meu estômago, medo não de te perder, medo de ser mais um. Ainda sou criança, Mãe? E a senhora, sonha até hoje com as bonecas que lhe assombraram a infância? Uma barata me humilha o suficiente para que eu perca a viagem ao ser humano. César, onde foi que você guardou o livro que eu te dei no Natal? Hoje eu estou sensível demais para existir, para estar em público, me expor, discutir a matemática do amor. Mas discuto. As paredes têm ouvidos e querem saber da relação de amor e ódio que eu vivo. Todo amor comporta uma cota de ódio. Foi sempre assim. Desde Adão o homem é o mesmo. Têm horas que a luz se faz luz. Só hoje sem lápis nenhum no olho e o cabelo molhado pude entender o meu infinito finito. Te amo assim. Bata com mais força, com violência até. A porta que você quer que se abra não vai abrir a não ser que você a abra. Portanto, bata com mais força. Como a vida nos maltrata, não é mesmo? É penoso existir. É duro encontrar apoio cultural e financeiro, exceto apoio moral. Calor de fazer vontade de um chuveiro. Eu, na rua da amargura. Você?
"Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios." Água Viva - Clarice Lispector
Escrito por Luis às 06h23
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Escrito por Luis às 17h28
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A primeira hora do dia
Você nada e eu lhe observo do meu pedestal. O teu maiô branco me transmite paz, me transa, confirma que a vida é boa mesmo na sua dor. Existe uma dor maior e não é a minha. Leio João capítulo 24, versículo 24: Deus não desistiu na morte do seu filho. Ele é gente. É Zuzu Angel. Você abandona um pouco a água como faz comigo e me acena feliz, leve. Teu cabelo bagunçado me faz criança de comer um prato cheio da espessa de minha avó. Teu rosto é mulher. Tua boca é homem. Tenho medo de lhe perder, de deixar de ser garoto, do meu cabelo escuro virar prata. Eu, sabendo que você odeia banana prata. Ouço Cora zombar do tempo, mas não abandono meu queixume. Isto é cuidado que vira doença que foi amor. Também o é. Que é ciúme. Penso que sou o que quiseres: golfinho, águia, galinha. Eu só não consigo ser uma única coisa: indiferente. Eu existo na tua vida e exijo. Te dou também o que você quiser. Mato tua fome: cabrito ao vinho, leitão a pururuca, salsichas flambadas. E a sobremesa que você ditar, incluso embaixo da mesa. Você passa por mim, corpo molhado e chacoalha a cabeça, me atinge o rosto. Meu coração atingido há muito tempo, teme perder você, ainda que esteja muito claro que perdi você, como a água perde um pouco de água depois do mergulho de alguém. É tudo mentira esta história de que existe sempre uma pessoa para outra pessoa. Vivemos um rodízio. Salve-nos Rainha, mãe da misericórdia! Minha avó e meu avô, decididamente, nasceram para o retrato pendurado na parede há cinqüenta anos. Os meus pais têm um retrato igual. Eu tenho você e tenho ciúmes da água onde você acabou de mergulhar e nadar. A água tem mais de você do que tenho eu e isso me causa náuseas de água de piscina. Se fores embora, me deixa em qualquer data, amanhã ou depois de amanhã, menos hoje. Menos hoje. Prometa que não me deixará nunca enquanto o dia for hoje. Prometa.
"Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se (...)"
Adélia Prado
Escrito por Luis às 01h12
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Escrito por Luis às 13h16
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Ponto cruz, tricô e crochê
Minha mãe cantava de manhã cedinho:
"Acorda Maria Bonita,
Levanta, vai fazer o café,
Que o dia já vem raiando
E a polícia já está de pé...".
Ela cantava. Um dia parou de cantar:
"Olê, Mulher Rendeira,
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda,
Que eu te ensino a namorá...".
Tia Liquinha no quarto, terço nas mãos, a boca balbuciando qualquer pai nosso que estais no céu, olhar perdido. Minha mãe na cama de casal, dormindo tranqüilamente à custa de morfina. Meu pai no roçado de milho e algodão das seis às seis, almoçando o tempero de outras e me pagando escola para eu voltar pra casa chorando porque Benedito, mais velho e arengueiro, disse assim que minha mãe ia morrer e eu ia ficar órfão.
- Tia Liquinha, o que é órfão?
Mãinha cantava:
"Se essa rua,
Se essa rua fosse minha,
Eu mandava,
Eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas,
Com pedrinhas de brilhante,
Só pra ver,
Só pra ver meu bem passar...".
Rezei tanto, meu Deus, pedindo a Deus pra minha mãe ficar boa, pra ela não morrer de câncer.
Eu ficava na rede fingindo sono. Via meu pai se balançar na rede de varandas coloridas, os pés com rachões e feridas. Tia Liquinha, a noite toda pra lá e pra cá, com chás, água e comprimidos. Via a noite ir embora, meu pai se levantar com escuro, o galo entoar um canto limpo e a luz do dia me assombrar a vista.
Benedito me chateava:
- Câncer não tem cura, Luisinho. Você vai pra adoção!
- Tia Liquinha, o que é adoção?
Ela cantava:
"A rosa vermelha do meu bem-querer,
A rosa vermelha e branca hei de amar até morrer...".
Quando o pai de Benedito soube que ele me fazia chorar na escola, deu-lhe uma pisa de cipó que lhe ficaram riscas roxas nas canelas para contar a história.
Benedito parou de me aperrear.
Com pouco mais de um mês, nas férias da escola, Benedito apareceu lá em casa com rosas brancas e de roupa preta. Ele sentou do meu lado e me apertou com força.
- Minha avó disse assim que mulher quando morre, vira rosa. Sua mãe vai ser enterrada e vai virar rosa, Luisinho.
Eu tinha seis anos e até hoje quando vejo rosa branca, eu choro de alegria.
Ainda ouço:
"Fui na Espanha buscar o meu chapéu
Azul e branco da cor daquele céu,
Olha palma, palma, palma
Olha pé, pé, pé..."
Escrito por Luis às 01h18
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Escrito por Luis às 21h13
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Uma valsa pra dançar
Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato da sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa-tarde, Américo.
(Solte os cachorros - Adélia Prado)
Escrito por Luis às 02h53
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Escrito por Luis às 05h43
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H...
Você some e eu me divido
feito o copo de vidro que se choca
contra o chão.
Você aparece e eu sou
o mesmo copo de vidro partido.
Que compactuas
você e saudade?
Escrito por Luis às 00h00
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Marlene
Balcão de padaria
João, eu não sinto sua falta. Mas os pães que você fazia... são... os pães que você fazia. Os melhores. De manhã, quando acordo e preparo meu café, desejo pão. Bebo leite, coalhada, suco de laranja. O trabalho não muda uma vírgula faz sete anos. À tarde, quando a tarde se vai e eu volto para casa, me acompanha a solidão dos meus pensamentos. A vida dos poetas é esta; isto me consola. Deus determinou: uma parte dos homens rica, uma parte dos homens pobre e os demais a vida inteira como exercício de raciocínio sobre ambas as partes. Quem ama é rico? João, pouca coisa ou quase nada, arrisco dizer nada, nada ficou para ser dito. Mas os pães que você fazia... são... os pães que você fazia. O teu alimento me botava de pé assim que o dia tinha início, e quando o dia terminava, eu me botava no chão para o teu alimento. João... A nossa cama tinha lençóis que guardavam teu cheiro, ainda que você dissesse que sentia meu perfume ali. Quem não perdoa é pobre? Um corpo que eu nunca vi e nem quis e nem quereria e nem quero, sobre aqueles lençóis e o teu corpo que eu julgava conhecer tão bem, tão meu, teu corpo que eu sempre quis, sobre aquele corpo que eu nunca vi. O baile das ondas sobre nossos lençóis. Aliás, sobre aqueles panos. Trapos velhos para os quais você devia confidenciar, ruminar desejos de sua pele branca e rosa. Fortuna é amar e ser amado. Você é digno de pena ou perdão? Eu não desejo nada. Não desejo teu corpo sobre aquele corpo até agora nem desejo corpos separados. Tenho a sensação de que você não está nada bem. Condenado está quem não absolve teu próximo da culpa. Prefiro não pensar, não julgar, não sentir. Mas sentir eu sinto. O meu café é bom. Aprendi dia desses uma receita bem simples: biscoitos de água e sal. Posso preparar quinhentos biscoitos numa única tarde e presentear pessoas que estão de regime ou até mesmo vender a preço de custo. Como tapioca, bolo de cenoura, pão francês. Mas João, os pães que você fazia... são... os pães que você fazia!
Escrito por Luis às 02h38
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